Ariel Dumehvir

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Bio:

Olhar Biografia provisória de Markul

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Ariel, ao atravessar os portões do castelo de seu pai, sentiu algo se partir. Seu coração pesava mais que sua armadura, de forma que até mesmo seu cavalo parecia enfraquecer sob seu fardo. Coursier, seu cavalo de guerra que nunca havia sido menos veloz que nenhum vendaval, corria como nunca sob as chicotadas do cavaleiro, mas o palácio dos Dumehvir parecia nunca se afastar rápido o suficiente.

Enquanto cavalgava noite e dia, Ariel conversava consigo mesmo para de algum forma tentar manter o foco e decidir qual seria o próximo passo: Havia decidido que não viveria uma vida atrelada a aparências e submetida a hierarquias sem sentido, ainda mais após testemunhar o que a perda desta hierarquia pode fazer com um homem bondoso que viveu apoiando-se sobre ela.

Após alguma reflexão, decidiu rumar para o reino de Orenais e buscar conselho com os anciões. “A Palavra dos Elfos é sempre valiosa, porém raramente é o que parece”, repetiu Ariel enquanto as palavras de seu pai ecoavam em sua cabeça.

Dias depois, ao avistar o bosque onde sabia ficar a entrada do Reino Élfico, parou Ariel parou subitamente ao sentir subitamente a temperatura cair e uma sombra passar por cima de sua cabeça, escurecendo todo o seu entorno e depois passando adiante como se, apesar de seu tamanho, não quisesse ser notada.

Era o início do inverno quando alcançou finalmente os portões do reino escondido na floresta e a neve já começava a cair. Adentrou o palácio no topo da maior árvore no centro da capital e, valendo-se do nome de seu pai e dos antigos laços que este nome evocava, pediu pela tão famosa Palavra dos Elfos.

Para sua surpresa, foi levado a um grande salão onde, ao pé de uma grande escadaria, havia apenas uma elfa. No topo da escadaria havia um hall com grandes esculturas de guerreiros humanos e altas janelas pelas quais entrava a luz da lua, dando um banho de cores frias ao já gelado salão. Ariel ficou em silêncio enquanto observava aquele ser misterioso parecia não dar atenção à sua presença e parecia conversar com a luz da lua e com os flocos de neve que pareciam cair apesar das janelas fechadas.

Finalmente, a elfa virou-se, mostrando semblante de rara beleza e elegância ímpares
mesmo entre seu povo e olhos cor de prata que denotavam assustadora ferocidade. Ariel
estremeceu quando a anfitriã – que estranhamente não parecia fazer parte daquele reino por alguma sutileza que o meio-elfo era incapaz de precisar – abriu os lábios e , com uma voz ao mesmo tempo doce como mel e retumbante como uma avalanche, disse:

“Eu sou Faëye, ou, como os humanos costumam me chamar, A Palavra dos Elfos.
Estou aqui para aqueles que têm os princípios – outrora puros – manchados e o caminho
duvidoso, e você agora será meu aprendiz e estudará os caminhos do mundo como uma forma de guiar seu coração, se assim for a sua vontade".

Ariel curvou-se e entregou-se aos ensinamentos de Faëye, que mostrou-se uma pessoa de grande conhecimento e de sensibilidade ainda maior, e sob sua tutela estudou
ferrenhamente o que os elfos chamavam de as Grandes Artes (Música, Literatura e Magia).

Durante mais de um ano, viveu entre os elfos, que o acolheram como a um igual: participava de suas festas, comia de sua comida, banhava-se em seus rios e caminhava por seus bosques. Por todo o tempo em que permaneceu na Floresta, o inverno perseverou.

Um dia, porém, durante um treino de tiro com arco, Faëye, como se tivesse escutado
algo que Ariel não conseguia, deixou cair as flechas que segurava e correu em direção ao palácio sem dar explicação alguma. Ariel, preocupado, foi atrás de sua mentora e ao chegar ao hall do castelo viu-a em uma discussão severa com Maedhros, o príncipe dos elfos, que estava notavelmente contrariado. O meio-elfo escondeu-se e escutou:

“… não posso deixar minha família e meu tesouro desguarnecidos por mais tempo,
ainda mais agora que estão correndo perigo. E mais: não se esqueça que eu nada lhe devo, elfo. Ponha-se no seu lugar.” – E dito isso, deu as costas ao príncipe, deixando-o desconcertado, e marchou para o salão da escadaria onde Ariel a havia visto pela primeira vez.

Ariel foi atrás dela e, ao entrar no salão, gritou para a elfa, que já estava no topo da
escadaria:

“Você simplesmente vai embora assim, sem despedidas?” vociferou, “E todas as coisas que eu ainda tenho a aprender?”

E Faëye, virando-se com um olhar desolado, respondeu, com a mesma doçura e
retumbância de suas primeiras palavras naquele mesmo salão:

“Eu já nada tenho a lhe ensinar que você não tenha dentro do coração, meio-elfo. A ti
eu só devo agora desejos de boa fortuna.” E com estas palavras, passou para trás do escudo de uma das estátuas e Ariel sabia que não mais adiantaria subir os degraus procurando por ela.

Naquela noite, Ariel demorou a dormir, e quando finalmente conseguiu, teve sonhos
vívidos com uma montanha cujo cume lembrava a cabeça de um dragão coberto de gelo, de dentro da qual escutavam-se gritos e a voz de Faëye clamava por ajuda.

Acordando com o coração acelerado, Ariel procurou Maedhros e lhe perguntou sobre o que havia sido a discussão e onde poderia encontrar a tal montanha. O príncipe élfico, apesar de surpreso com o conhecimento do rapaz sobre a montanha, deu-lhe um mapa e uma espada, dizendo-lhe que era livre para ir.

Selado seu cavalo, Ariel partiu em direção à montanha. Ao chegar, reparou
primeiramente na altura da montanha, seu cume estando além das nuvens. Em determinado ponto, encontrou uma escadaria entalhada na própria pedra, coberta de hera devido a anos de abandono.

O meio-elfo subiu e subiu, até seus pulmões pedirem clemência e o obrigarem a parar pela primeira vez – ainda não se via o topo. Após algum descanso, o Ariel tornou
a galgar os degraus de pedra, que já começavam a salpicar-se de neve e gelo.

A segunda parada se deu quando, já chegando ao cume, a sensação de familiaridade causada pelo formato esculpido do topo da montanha foi quebrada pela presença
de uma grande sombra negra que jazia sobre a cabeça do enorme dragão de pedra.

A última vez que Ariel parou sobre os degraus foi ao chegar perto o suficiente para
discernir o que era a sombra negra que lhe instigava a curiosidade. Mesmo com os pés
congelando dentro das botas e o vento açoitando-lhe a face, de perto a figura era inconfundível e inesquecível: Estendendo-se sobre a cabeça do grande dragão de pedra entalhado no cume gelado, jazia estirado o cadáver de um dragão negro de proporções monstruosas, cujas asas estavam completamente retalhadas, o couro lanhado em tiras profundas e sangrentas, o pescoço com uma enorme ferida onde o sangue desta misturava-se com espículas de gelo que pareciam sair de dentro da própria carne da criatura e da boca escorria saliva ácida que lhe corroía as próprias escamas do focinho, passando pela fina pele e músculos e expondo-lhe parte do crânio.

Esta visão paralisou Ariel completamente. “Tenho que me mexer”, pensou. “Tenho que chegar ao fundo disso” e, com este pensamento, começou a olhar em volta, procurando uma entrada que levasse ao interior da montanha, de onde vinham os gritos por ajuda em seu sonho.

Achou, em meio à grossa camada de neve que já recobria esta altura da montanha, uma porta de pedra que empurrou com dificuldade. Lá dentro, uma visão indescritível alcançou seus olhos: um salão de tesouro além de qualquer imaginação. Milhões de peças de ouro, prata e outros metais dos quais Ariel jamais havia ouvido falar, mas que certamente valiam pequenas fortunas. Pedras preciosas de todas as cores e tamanhos, livros, pergaminhos e estatuetas também compunham a coleção.

Nada disso, porém, chamou a atenção de Ariel por muito tempo pois havia algo ainda mais assombroso lá dentro: sobre todo aquele tesouro mágico deitava-se um dragão de prata ainda maior que o outro dragão, com os mesmos sinais de luta, porém vivo. Desta vez, entretanto, o meio-elfo não sentiu medo algum. Sabia, com base em algum instinto em seu interior, que aquela fera não lhe oferecia qualquer perigo.

Escorregando sobre as peças do tesouro (tantas eram que não se podia enxergar o piso do enorme salão, tampouco saber em que profundidade se encontrava o mesmo) ele chegou ao dragão e cuidadosamente tocou-lhe o focinho. Como que em resposta ao toque, o dragão abriu os enormes olhos – os mesmos olhos cinzentos de Faëye, só que a ferocidade de antes for a substituída por um misto de cansaço com esperança.

Então, como em um passe de mágica, Ariel viu sua mente tornar-se uma com a mente do dragão, cuja vida passava diante dos olhos: como o dragão adquiriu um interesse particular por Ariel desde que ele deixou o castelo; Como o dragão, sob a forma de Faëye era “Amiga dos Elfos”, sempre bem vinda em seus conselhos e cidades há centenas de anos; Como ela se apiedou do desespero de Ariel, pois via nele um coração puro como poucos eram; Como ela previu a chegada do dragão negro Zeromoth à sua montanha; Como ela odiava a ideia de que Zeromoth clamasse o seu tesouro; Como os dragões lutaram feroz e bravamente entre si pelo controle da montanha, em uma peleja onde pereceu Zeromoth; Como, apesar de vencedora, ela sabia que não sobreviveria ao veneno das presas do dragão negro; E, finalmente, como o asco causado pela ideia de um dragão maligno sentado sobre seu tesouro nada era perto do horror que lhe causava a ideia de que, junto de seu tesouro, o tirano também lhe usurpasse o que ela mais amava e prezava em todo o mundo: o sangue do seu sangue. Entretanto, agora havia batido à sua porta alguém para zelar por ele, já que ela mesma em breve já não mais viveria.

Assim, Ariel observou com lágrimas nos olhos enquanto as pálpebras enormes da nobre fera se cerravam à sua frente e as asas baixavam-se lentamente, até estenderem-se atônicas sobre o chão dourado.

Mal teve tempo de secar as lágrimas, o meio-elfo viu um brilho saindo de baixo da pata do dragão. Ele já sabia do que se tratava: Um ovo de dragão, branco com veios prateados, o bem mais valioso de todo o tesouro, que custou a vida de uma nobre mãe dragão, e que agora era de Ariel para cuidar. Com isso, o brilho do ovo só fez aumentar, de modo que a luz cegou Ariel e este perdeu a consciência.

Ao acordar, viu-se de volta a Orenais, em uma cama com uma bolsa de couro ao lado, dentro da qual havia o Ovo, um anel e um pergaminho, que lia: “A partir de hoje, tu és o sangue do meu sangue.”

Ariel Dumehvir

D&D 5.0+; "Campanha Sem Nome N° 6" ZombieAlligator ZombieAlligator